Subnotificação da dor no DIU no SUS choca especialistas
Pesquisa aponta que guias do SUS minimizam em 16 vezes o desconforto da inserção do DIU, gerando preocupação sobre informação e autonomia feminina.
Foto: Reprodução
Estudo aponta que manual oficial minimiza em 16 vezes o desconforto da inserção do dispositivo intrauterino, gerando preocupação sobre a qualidade do atendimento e a autonomia reprodutiva das mulheres.
Um estudo recente divulgado pela Folha de S.Paulo, na seção Equilíbrio, revela uma discrepância alarmante entre a percepção da dor durante a inserção do Dispositivo Intrauterino (DIU) e a forma como este procedimento é descrito em manuais oficiais do Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com a pesquisa, a dor associada à colocação do DIU é subestimada em até 16 vezes nos materiais educativos e de orientação utilizados pelo sistema público de saúde. A publicação, datada de 3 de julho de 2026, levanta sérias questões sobre a adequação da informação oferecida às pacientes e o impacto dessa subnotificação na experiência e na decisão das mulheres sobre métodos contraceptivos.
A inserção do DIU, embora seja um procedimento médico seguro e eficaz, é frequentemente associada a um desconforto significativo, que pode variar de leve a intenso, dependendo da sensibilidade individual e de fatores técnicos. A pesquisa em questão analisou a descrição da dor nos manuais do SUS e a comparou com relatos de pacientes e evidências clínicas, constatando que a intensidade e a duração do desconforto são consideravelmente minimizadas nos documentos oficiais. Essa subestimação pode levar as mulheres a não estarem devidamente preparadas para a experiência, resultando em frustração, ansiedade e, em alguns casos, até mesmo na recusa do método contraceptivo.
Especialistas ouvidos pela reportagem da Folha expressam preocupação com as implicações dessa disparidade. A falta de uma descrição precisa da dor pode ser interpretada como uma falha na comunicação médico-paciente, comprometendo a autonomia informada das mulheres. Ao receberem informações incompletas ou imprecisas sobre os potenciais desconfortos, as pacientes podem ter sua capacidade de tomar decisões conscientes sobre sua saúde reprodutiva prejudicada. Isso é particularmente relevante em um contexto onde o acesso a métodos contraceptivos de longa duração é fundamental para o planejamento familiar e a prevenção de gestações indesejadas.
A subnotificação da dor no DIU no SUS não é um problema isolado, mas reflete uma tendência mais ampla de negligência em relação à experiência da dor em procedimentos ginecológicos. Estudos anteriores já indicavam que a dor durante exames e procedimentos ginecológicos é frequentemente minimizada ou desconsiderada, o que contribui para um estigma em torno da saúde feminina e para a falta de investimento em estratégias eficazes de manejo da dor. A pesquisa sobre o DIU reforça a necessidade de uma revisão profunda dos protocolos e materiais educativos, garantindo que as informações sejam precisas, completas e baseadas na vivência real das pacientes.
A desinformação sobre a intensidade da dor pode ter consequências diretas na adesão a métodos contraceptivos. Mulheres que esperam um desconforto mínimo e se deparam com uma dor mais intensa podem sentir-se enganadas ou mal assistidas, o que pode levar à remoção prematura do DIU e à busca por alternativas menos eficazes ou mais arriscadas. Além disso, a experiência negativa pode gerar um receio generalizado em relação a outros procedimentos ginecológicos, desincentivando as mulheres a buscarem cuidados de saúde regulares.
A comunidade científica e os movimentos feministas têm defendido há tempos uma abordagem mais humanizada e centrada na paciente nos serviços de saúde. Isso inclui o reconhecimento e a validação da dor como uma experiência subjetiva e real, e a implementação de medidas para minimizá-la e tratá-la adequadamente. No caso da inserção do DIU, isso poderia envolver o uso de analgésicos orais ou tópicos antes do procedimento, técnicas de relaxamento, e uma comunicação clara e empática por parte dos profissionais de saúde.
A Folha de S.Paulo, ao trazer à tona essa questão, cumpre seu papel de informar e provocar o debate público sobre a qualidade dos serviços de saúde oferecidos à população. A expectativa é que os resultados deste estudo sirvam como um catalisador para a revisão dos manuais e diretrizes do SUS, garantindo que as mulheres recebam informações precisas e completas sobre todos os aspectos da inserção do DIU, incluindo a intensidade da dor. Somente com informações transparentes e um cuidado mais atento às suas necessidades e experiências, as mulheres poderão exercer plenamente sua autonomia reprodutiva e tomar as decisões mais adequadas para sua saúde e bem-estar. A saúde feminina exige atenção e respeito, e a subnotificação da dor é um obstáculo que precisa ser superado urgentemente.